Cacheada mim

Seminário, workshop, assembleia

No dia 16/01, na última segunda-feira, completou 1 ano desde o dia em que decidi que passaria a usar/aceitar/descobrir meu cabelo natural.

Eu lembrei alguns dias antes, na verdade, que o aniversário de uma das decisões mais significativas pra mim estaria chegando. Quando acordei no dia 16 e me vi no espelho, não pude deixar de sentir certo orgulho de mim. “Não achei que conseguiria”, foi a primeira coisa que pensei. E, realmente, não achei.

No ano passado, cortei meu cabelo curto e decidi que não faria mais escova nem chapinha, e assim aconteceu. Em outubro, eu já estava cansada do cabelo com duas texturas (mesmo que elas não fossem gritantemente (?) diferentes entre si) e decidi que faria o big chop. Fiz no dia 21, que marcou o fim da minha transição capilar e a volta dos que não foram (essa frase jamais fez sentido antes, mas tem um sentido estranhamente aplicável agora).

Amanhã faz 3 meses que cortei o cabelo joãozinho. Não sei porque raios esse corte tem esse nome. 3 meses que, vez ou outra, escuto comentários que não são edificantes. 3 meses que acompanho um cachinho do lado esquerdo da minha cabeça e chego até a cumprimentá-lo (sim) e parabenizá-lo nos dias que ele está todo bonitinho querendo cair na minha testa.

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Eu, mimando o cacho à esquerda da testa (sem a queimadura).

Eu pude perceber, nesse ano, que pode acontecer de a pessoa se achar desconstruída e livre de algum parâmetro/imposição e, na verdade, não é. Esse tipo de atitude pode vir da pessoa que você menos espera. Como cortei meu cabelo bem curtinho, como jamais cortei, e devido ao formato do meu cacho (2c/3a e até 3b na frente), recebi o seguinte comentário: “já pensou se o seu cabelo virar um black?”, com uma entonação de espanto.

Diante desse comentário, e pensando bem agora, eu poderia ter começado um trabalho de desconstrução na pessoa (ninguém nasce desconstruído, amigos, já dizia o poeta), um seminário sobre como cuidar da sua vida, um workshop sobre qual o problema dos cabelos black power – ou, até mesmo, uma assembleia sobre a importância desse movimento -, mas a única coisa que eu pensei no momento foi: “sim, olha só, esse é meu cabelinho”.

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Não senti pena de mim, nem vergonha, nem raiva da minha genética. Apenas me senti eu mesma e estava à vontade com isso. Me senti dona de mim, foi libertador.

Só quis compartilhar isso, mesmo.

Beijos desse blackinho que vos escreve!